Crónica – A História Completa

As Residências Artísticas na aldeia beirã de S. Pedro do Rio Seco.

Aos olhos de Caetana Serôdio, dinamizadora social para a Transição.

Faziam já dois anos que vivia na aldeia de S. Pedro do Rio Seco.

Sem maldade, contrariamente ao que possa à primeira vista parecer, mas por curiosidade e alguma desconfiança (amigável, de protecção aos meus pares), já olhava as bicicletas com estranhos ou algum carro desconhecido em direcção à fronteira, com atenção e zelo. Talvez, confesso, o sobrolho franzido me tenha sido emprestado… Porque me habituei a conhecer as caras, as rotinas; as pequenas fugas à normalidade também pertenciam já à importância dos meus dias…

Quando, já volvidos esses dois anos, depois de percursos variados e tentativas diversas de dinamização da aldeia, de puxada para a participação, de animação e conforto, quase de habitante em habitante… Surge a primeira edição das Residências Artísticas em S. Pedro do Rio Seco, que culminariam durante o festival Tempo d’Aldeia com as apresentações dos trabalhos desenvolvidos. Até agora, perfeito. Ideia genial. Todos concordam. Mas essencial, num projecto destes, é envolver a população. Porque é dela as memórias e rotinas representadas, é a sua obra que aqui está em jogo, as suas convivências, percursos, conquistas. Não é isso o que é para nós a nossa aldeia, a nossa casa, a nossa terra?

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Voltemos ao sobrolho. Realizadas as candidaturas por um júri competente e alinhado com os propósitos ficou minha tarefa a ligação dos artistas com os habitantes. Mas, como? Um projecto na Igreja?? Dança contemporânea e canto lírico? Sempre me vi como uma pioneira, mas o sobrolho estava carregado, desconfiado. Foi um grande percurso de aproximação e confiança que levou a que tanto fosse possível nesta aldeia. Mas agora pedir a Igreja para um espectáculo? Parecia-me absolutamente demais, estava quase do lado das minhas velhotas “isto não é coisa para a Igreja…”. Mas o desafio estava lançado, e era meu papel interligar gerações, crenças e percursos. E tenho um fraquinho por desafios, confesso também. Mas já lá voltaremos, às minhas velhotas (com o tom mais carinhoso que consigam imaginar), à Igreja, passaremos por outras personagens que tornaram tudo possível e aposto que será também delicioso para o leitor compreender o que aqui foi aconteceu.

Os projectos foram-me apresentados:

Um pintor de plaquinhas de gesso que andaria pelo exterior a inspirar-se – e a inspirar; duas raparigas que fariam um registo contemporâneo da aldeia de S. Pedro, em fotografia e vídeo, muito virado para a antropologia; um colectivo de três que propunham um projecto de arte pública e performance através da pesquisa do som de aparelhos de rádio e antenas obsoletas recolhidas também pela aldeia; um contador de histórias, que se propôs a recolher memórias locais; e as meninas da igreja, cantadeira e dançarina. A ver no que que isto iria dar.

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Fosse como fosse, abanaria a aldeia, animaria, daria que falar. Mexeria com o que são as memórias e as próprias noções de futuro. Traria novos diálogos à terra, novos temas, novas formas de estar. Em última análise, os cafés teriam mais público, e nesse espaço o intercâmbio era sempre uma experiência curiosa visto que aqui os aldeãos estavam mesmo na sua praia. Mas sempre achei, e depois desta primeira edição continuo a defender a tese, de que é essencial uma verdadeira abertura por parte dos visitantes (neste caso, os artistas), uma vontade de diálogo com humildade e braços abertos. São sempre forasteiros, intrusos no conjunto das famílias com séculos de convivência. Não sei se pela distância da aldeia dos centros urbanos, da dificuldade e tempo em chegar, das condições (muito simples) oferecidas aos residentes, ou da proposta – para se aventurarem numa aldeia do interior – as pessoas que surgiram vieram sem dúvidas alinhadas com os propósitos da Associação Rio Vivo – interligação, inclusão, valorização da ruralidade (da antiga e da nova), gosto pelo campo, terra, natureza. Acima de tudo, vontade de compreender o que nos lega o passado e que podemos alavancar para o futuro, com uma humildade e respeito admiráveis. Para mim foi também este aspecto que fez com que a primeira edição das Residências Artísticas em S. Pedro do Rio Seco se tornassem um sucesso. (Obrigada!!)

Ah, a Igreja, a cantadeira e dançarina na Igreja. Estão ansiosos por conhecer o processo? Desculpem insistir neste ponto. De certa forma peço desculpa aos outros residentes, mas foi sem dúvida a Catarina (dança contemporânea) e a Patrícia (canto lírico) que mais me fizeram vibrar com o processo. Apresentações feitas, começámos com um passeio pela aldeia onde conhecer a bonita igreja de S. Pedro do Rio Seco se impunha. Depois de pedir a chave à minha querida D. Céu, lá fomos. E foi a primeira vez que ouvimos cantar a Patrícia. Quando penso nisso ainda se me arrepiam as costas. Era impressionante o tom, o timbre, a emoção. “Uff, pensei eu, por esta é que nem eu nem S. Pedro estávamos à espera…” E foi a primeira etapa que me fez começar a depositar de forma determinada a minha vontade e entusiasmo no papel que me tinha sido proposto. As meninas precisavam de conhecer o Sr. Padre, as senhoras do coro (com quem queriam colaborar), a D. Céu (toda a gente devia conhecer a D. Céu!) e ganhar espaço e autonomia para poderem pedir a chave e ensaiar na igreja. Eu não podia acreditar que fosse possível. Falei com o Sr. Padre, expliquei-lhe o que eram as Residências e pedi-lhe para que conhecesse a Patrícia e a Catarina. A seguir ao terço lá fomos, e combinámos uma abordagem estruturada para convencer as senhoras, no dia a seguir, depois do ensaio do coro (que estava a ser levado muito a sério, porque no domingo a seguir estaria em S. Pedro o Sr. Bispo da Guarda a crismar cerca de 50 pessoas da aldeia e arredores).

“Na igreja não se dança…”, “Isso é em África, aqui não fazemos isso, não está certo, não é local apropriado” – e olhavam para mim (“Oh Caetana, mas que ideia!”) e eu aflita, não dizia piu. Mas a Catarina começou por explicar a pesquisa que queria fazer na área do sagrado. Que respeitava o local e tudo o que significava e que queria  por isso enaltecê-lo. Corações derretidos por ouvir uma jovem falar daquela maneira, não obstante, não convencidos. Eu não dizia piu. O Sr. Padre gostou muito das duas e estava já disponível para dar o benefício da dúvida. Mas as senhoras não. Até ao momento em que a Patrícia, sempre sossegadinha e sonhadora, com o seu bebé ainda muito muito pequenino na barriga, se insurgiu e explicou, e fez ver o claro – que estavam ali porque estavam do lado das senhoras da aldeia e não outra coisa. E conseguiu poder cantar no dia a seguir para ser avaliada. Aí vi que estava ganho.

P1150738Foi uma dança deliciosa de se ver a de aproximação e partilha entre os habitantes e os residentes. O Martinho – que desenhava placas de gesso preparadas exclusivamente para o local que o inspirava, fosse um muro, uma casa, o chão , um banco… – teve que ter aprovação, pela primeira vez, dos donos dos sítios onde colocava as peças. Foi muito gira a reacção das pessoas que rapidamente se abriram ao desafio e começaram a procurar surpresas pela aldeia, nos sítios mais inusitados. Uma plaquinha houve, que quase ouve (sendo que era uma orelha), estava colocada no chão junto a uma erva que parecia um tufo (daqueles que sai das orelhas). Pois foi um aldeão e, puf, tirou o tufo, porque tapava a estranha imagem que aí se encontrava e que mesmo assim era acarinhada.

Pela aldeia, de história em estória, personagem em narrador, lá iam os três recolhedores de memórias, as Marianas, antropólogas a pesquisar para o registo contemporâneo e o Pedro, Contador de Histórias.

As Marianas foram invejadas porque comiam queijo e presunto do bom e do melhor, andaram em carrinhas de caixa aberta a conhecer a “folha”, o campo, a paisagem rural, rumo às fotografias de ovelhas. Conheceram por perto gentes e memórias que por mais que fosse sua intenção apresentar, só elas sabem – sei que assim é – o que lhes foi partilhado. Procuraram retratar as vivência actuais numa aldeia rural, com as suas características e problemas característicos e o seu resultado foi magnífico, sendo que as suas capacidades de respeitar, escutar e devolver valor foram importante contributo para todo o projecto que a Associação Rio Vivo tem vindo a desenvolver.

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O Pedro trazia nos olhos a curiosidade de um viajante – de outro país, de outro planeta? – e tudo era notícia, novidade e risota. Animador por excelência, durante as residências partilhou com a aldeia estórias de outras paragens, numa noite à beira de um barroco…

ArteNaldeia_SAS (13)O Colectivo S.A.S trouxe a urbanização e a loucura para a pequena e pacata aldeia beirã. A proposta era performarem durante o festival Tempo d’Aldeia as experiências adquiridas com as ondas de rádios e antenas e os sons resultantes da interacção das pessoas com os aparelhos e entre elas. A antiga escola primária foi oficina, sede e estúdio e acolheu quem quis vir experimentar e explorar estes sons. Com maestro e tudo, o colectivo estava sempre receptivo a mais antenas e rádios, criando novos instrumentos a partir destes, verdadeiras esculturas pós-modernas.

A sublinhar: o ambiente era delicioso. Estávamos numa aldeia remota, longe do mundo alucinante lá fora. Estávamos entre nós, a fazer algo que serviria aos que à nossa volta se encontravam. Juntos, pensámos o futuro, sonhámos caminhos, soltámos gargalhadas. Entre os residentes – e quem os recebeu – ficou para sempre uma aura de memória que não facilmente se diluirá. Artistas, gente criativa com vontade de criar novas propostas – para a beleza, para a compreensão, para a partilha, para a transmissão e comunicação entre gerações e mundos (penso no urbano e rural). Não tendo sido planeada pela organização foi naturalmente que aconteceu uma grande interligação de saberes e experiências. A dançadeira partilhou exercícios de ligação com o corpo, o Simão, músico maestro do S.A.S, acabou por se juntar ao espectáculo da igreja, e todos para todos foram grandes pilares nos projectos de cada um, movendo-se como um todo que eram “os artistas”.

E na Igreja? O projecto ia de vento em popa. A chave da igreja foi emprestada à Catarina e Patrícia que assim podiam explorar as potencialidades do espaço para um espectáculo de luz, som e dança. As senhoras do coro lá foram aceitando o desafio que foi desenhado justamente à sua medida. O propósito de consagrar o sagrado agradava-lhes, o espaço era um em que se sentiam em casa, e todas juntas eram um só corpo que funcionava em uníssono, permitindo cada uma a ousadia da participação a todas as outras. O Sr. Padre, esse, aproveito para lhe fazer uma vénia (mais uma vez) sendo que foi personagem essencial deste enorme sucesso – tanto do projecto da associação Rio Vivo para a Transição como das Residências Artísticas. Quando a decisão de se apoiar ou não o espectáculo na Igreja estava tremido por parte das senhoras do coro o Sr. Padre trouxe, transcritas da Bíblia, algumas passagens em que efectivamente se dançou e cantou em espaços sagrados. Assim foi apoiada a vinda para a aldeia de mais arte com menos fronteiras, mais abertura à novidade, mais confiança nos jovens e abertura do que é o espaço sagrado da igreja (contribuindo também para uma revolução interna que extravassa o projecto da Rio Vivo?).

O festival foi deslumbrante. O trabalho era muito, os preparativos intensos, os imprevistos de última hora constantes. Os artistas ajudaram em muito naquilo que já saía das suas valências. Apoiavam os projectos uns dos outros na produção e moviam-se bem sozinhos e independentes, conheciam os cantos à casa e procuravam entre os habitantes ajuda nalgum aspecto específico, o que também foi uma grande ajuda.

Um guia para descobrir as pinturas do Martinho estava disponível, mas os aldeãos já as conheciam, comentavam e apresentavam aos visitantes de outras paragens. Riam de todas as maluqueiras, estavam visivelmente satisfeitos com o movimento e alegria que se tinham gerado nas últimas semanas. Para a Mariana Rei e Mariana Santos, a Ruína das Exposições estava arranjada para receber as suas recolhas e histórias. A inauguração foi um sucesso, o projecto apresentado e posto a discussão. Houve trocas entre aldeãos, artistas, retratados, organizadores e participantes do festival, curiosos pela aldeia. Foi um sucesso, o orgulho era nítido e a aldeia acarinhada tendo surgido uma grande conversa sobre que futuro, que caminho, que particularidades, fraquezas e oportunidades.

Incluídos na programação do festival os três espectáculos – Contador de Histórias, Colectivo S.A.S., e meninas da Igreja – foram inesquecíveis. A Catarina dançarina participou no S.A.S e o Simão ficou responsável pela luz na Igreja.

Pedro Lopes, o Contador de Histórias, compilou para o seu espectáculo uma série de histórias recolhidas pela aldeia ao que juntou histórias do seu próprio reportório adaptadas à realidade local, usando como personagens gente do nosso quotidiano, habitantes de S. Pedro. No final do espectáculo brindou-nos com uma “Queimada”, que aprendeu a fazer com o Carlos dos Santos, aldeão, e os artistas todos juntaram-se a ele para cantar para o público a Senhora do Almortão. O sentimento de grupo e de conexão era grande entre os artistas. Um espectáculo de um era o espectáculo de todos.

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Também essa ligação aconteceu com a apresentação do colectivo S.A.S com a Catarina do projecto de dança/canto da igreja a participar activamente. O espectáculo foi uma improvisação, música experimental, um exercício de criar beleza entre sons estranhos e pouco familiares. O resultado foi uma grande aventura sonora para a aldeia que de certa forma chocou as pessoas que não perceberam o que queria ser transmitido. Mas assistiram até ao fim! Eu por mim, aproveitei a deixa para me lançar numa grande e profunda discussão/reflexão sobre o papel/emergência da arte, cultura e expressão. Como tudo é lindo e sempre em aberto!

Na Igreja… Consumou-se uma verdadeira revolução. Pela minha parte vou confessar o nervosismo que não me permitiu ver o espectáculo com os meus próprios olhos, tendo visto antes com os olhos do “sobrolho”. Foi lindíssimo, bastante inexplicável. Toda a igreja estava alterada. Os bancos tinham sido movidos e a atenção estava direccionada para o centro, junto ao púlpito. A luz era muito pouca e um morcego rodopiou durante todo o espectáculo, de parede em parede, afirmando o seu papel. Primeiro foram convidadas a entrar as senhoras do coro, depois os outros, os mais velhos. A aldeia em peso estava presente, incrível. A proposta da Patrícia e da Catarina estava centrada na improvisação. Quando vi o resultado não queria acreditar e tive que conformar se foi realmente o que fizeram. Sim, só seguiram algumas linhas gerais para que pudessem estar em uníssono. O canto lírico, a dança contemporânea, a luz e as senhoras do coro. A Catarina estava nua por baixo de um vestido branco. Estava linda e entregue ao seu próprio corpo e à intenção que tinha delineado. A Patrícia num vestido preto, brilhava na penumbra e emanava uma luz muito própria, entregue ao que se dançava e à intensidade da luz. Cantava com toda a sua alma, enchia toda uma igreja, todo um mundo de estrelas lá fora, e a alma de quem presenciava. As senhoras viveram o processo numa grande entrega e confiança nas duas raparigas. O resultado foi estonteante, a beleza entrou pelos poros e houve quem confessasse até ter tido medo durante o espectáculo, foi tal a força. É inexplicável porque a simplicidade foi esta – uma igreja, uma rapariga a cantar, uma rapariga a dançar, uma lâmpada que aumentava e diminuía de intensidade e um coro de senhoras que rezava no final do espectáculo. Para mim foi neste espectáculo, pela entrega e pelo resultado, pelo processo e capacidade de comunicação, pelos valores de partilha, beleza e intergeracionalidade que as residências artísticas se superaram a si mesmas, ou pelo menos me superaram e ao meu sobrolho carregado.

Foi inesquecível, como tudo o que aconteceu na aldeia de S. Pedro do Rio Seco tem sido inesquecível para mim. Tudo o que é a dimensão humana, com os seus medos, vergonhas e bloqueios, histórias e ligações e suas superações, novidades, entregas e confiança nos outros e em novos processos. É na abertura a novas possibilidades e ideias, através da arte e da relação com outros que julgávamos tão diferentes que se abre o vislumbre de um novo mundo, com novas perspectivas e cada vez mais liberdade para conhecer e explorar esse novo mundo em nós. Assim, um processo de transição pretende-se o mais completo possível sempre almejando a apresentação de novas perspectivas no plano individual, e num processo que se pretende comunitário e de interapoio. Assim, as Residências Artísticas em S. Pedro são um projecto a repetir, pelos ventos de animação e desconhecido que trazem à aldeia e tudo o que esses ventos trazem consigo. Nesta confiança e entrega à aventura comunitária nascem flores, são flores, mas ainda não sabemos mais. É pelo sonho que vamos.

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